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Mudanças

– Filho da puta! – Gustavo escuta o comandante Rodrigues gritar, voltando a olhar pelo binóculo, tentando ver quem é o immortuos que está comandando o ataque.

A chegada da “sobrevivente” trouxe muitas perguntas para todos os moradores da Necropoli. Com Gustavo e Marcela não foi diferente.

– O que você está vendo? – pergunta Marcela.

– Não consegui ver nada além de um bando de insanus immortuos. – responde Gustavo, utilizando o termo que aprendeu com Paulo, que está desaparecido a mais de vinte dias com o grupo de busca que saiu atrás da localização do “criadouro humano”.

– E se eles invadirem a Necropoli? – pergunta Marcela preocupada.

– Não irão. Estamos seguros. – responde Gustavo vacilante.

Marcela desconfia da resposta.

– Você soube sobre o que aquela tal de Suzana falou, não soube? O que era aquele grupo de busca com o qual Paulo saiu? – questiona Marcela.

Gustavo acena com a cabeça e volta a observar com o binóculo.

– Ela sofreu muito, Ma. As coisas que ela fala não fazem sentido algum. – responde o mecânico tentando confortá-la.

– Mas olha o que está acontecendo agora. – sua voz é trêmula – Não quero ter que fugir novamente. – ela começa a chorar.

Gustavo coloca o binóculo de lado e se aproxima para confortar sua namorada.

Desde que eles construíram a Necropoli civil, Gustavo e Marcela sabiam que teriam que deixar o passado para trás e reconstruir suas vidas. Gustavo auxiliou bastante no desenvolvimento da Necropoli, além de auxiliar nas pesquisas de novos combustíveis para os automóveis. Enquanto Marcela teve que aprender novos ofícios, já que uma jornalista – em um momento que havia uma grande necessidade de mão obras – não era tão útil. Mesmo assim, Marcela não deixou por desejar, indo atrás de aprender tudo o que podia para ajudar a construir aquela “cidade dentro da cidade”.

Ambos foram morar em uma mesma república, ou mausoléu, como alguns chamam as residências. Uma casa de dois andares que dividem com mais três pessoas. Durante os meses que se passaram, Gustavo e Marcela tornaram-se cada vez mais próximos, até um inevitável relacionamento correr. Tudo parecia estar voltando a uma certa normalidade, eles já deslumbravam no horizonte um renascimento para a raça humana.

– Nós não vamos ter que fugir novamente.

Ela se desvencilha de seu abraço.

– Pare de tentar me confortar! – grita angustiada – Nem você mesmo acredita que estamos tão seguros!

Gustavo fica sem resposta. Um grande e incomodo silêncio entre os dois toma conta do lugar. O mecânico nem mesmo escuta os tiros dos militares contra a turba de mortos vivos.

– Ma…

– Não! Preciso de espaço no momento. – afirma afastando-o com as mãos.

Gustavo opta por respeitar, a fim de evitar uma possível discussão. Ele volta para a janela do quarto e pega o binóculo novamente, para ver que a multidão de immortuos havia partido após terem feito um grande estrago no portão um da Necropoli. Os militares se mantêm a postos, para caso eles voltem, mas aquela visão já lhe permite puxar assutno novamente com Marcela.

– Eles se foram. – diz ele.

– Mas vão voltar. – retruca ela.

– Sim, irão. – responde o mecânico novamente – É assim que o mundo está atualmente. No momento não temos o que fazer, a não ser nos defender.

– Até quando isso? – pergunta Marcela irritada.

– Não sei. Talvez para o resto de nossas vidas. Mas pelo menos estamos em uma situação melhor do que nos meses antes de virmos pra cá. – responde Gustavo, começando a se irritar.

– Talvez seja melhor morrer! – diz desesperada.

– E se tornar um deles? – questiona Gustavo – Não fala besteira.

– Claro que não! Estou dizendo morrer de verdade! Ter a cabeça arrancada e ser cremada. – responde ela.

– Ma, por favor, seja razoável. Nossa situação não é imensamente diferente da que vivíamos antes disso tudo ocorrer. – diz Gustavo com uma voz mais suave – Só que naquela época tínhamos outros problemas. Haviam…

– Juro que não quero conversar sobre isso agora. – Marcela encerra o assunto, saindo do quarto.

Gustavo senta-se na cama e fica pensando se a comparação que ia fazer entre a situação atual e a violência no mundo antes da “epidemia” era coerente. Entretanto, seus pensamentos flutuam de um assunto para outro – expectativas, cenas do passado, planos, esperanças, e assim por diante – impedindo que ele consiga refletir com profundidade sobre o tema.

“Se Evandro estivesse conosco”, pensa Gustavo sendo pego de surpresa pelo seu desejo de segurança. Mesmo com a morte de Carla, o mecânico não tinha rancor do policial. Ele sabia que a atitude dele tinha sido para ajudá-la, mesmo que tenha dado errado.

Duas batidas na porta do quarto tiram Gustavo do transe.

– Entra.

A porta se abre e um homem magro, alto, de cabelo comprido entra com uma caixa.

– Fala, Gustavo. Beleza? – cumprimenta o homem.

– Tudo bem sim, Lucas. – responde Gustavo olhando para a caixa – Aconteceu alguma coisa?

– Não, não! – gesticula Lucas enquanto fala – Só vim te entregar isso. – Lucas entrega a caixa para o mecânico.

– O que é isso?

– Os militares disseram que foi deixado na frente da guarita três hoje durante a troca de turno da tarde. – responde Lucas.

– E os militares não abriram para ver? – Gustavo pergunta suspeitando daquilo.

– Não abriram a caixa, apenas o bilhete.

– Bilhete? – a curiosidade de Gustavo aumenta, fazendo-o procurar o bilhete, que está em um envelope grudado em uma das laterais da caixa – Ok, Lucas. Valeu.

A sós com a caixa, ele abre o bilhete:

“Caro, Gustavo ‘Mecânico’,

Isso é para que você saiba que aquele que nos causou tanto sofrimento não mais caminha nesse mundo.

Atenciosamente,

Evandro”.

Sentindo um calafrio, pois sabe que a forma de agir, e provavelmente pensar, de Evandro não condiz com o de um ser humano normal, Gustavo abre cautelosamente a caixa. Assim que tira a tampa, um cheiro de carniça sobe até as narinas do mecânico, que imaginando o que é, fecha a caixa e sai do quarto com ela.

Ele desce a escada e passa pela sala onde Marcela está assistindo a um filme.

– Onde você vai? – pergunta sua namorada.

– Vou jogar isso no lixo.

– E o que é isso?

– Um dos presentes bizarros de Evandro. – responde o mecânico tentando encerrar logo a conversa.

Marcela se surpreende:

– Evandro está vivo?

– Parece que sim. – responde brevemente Gustavo – Agora me deixe levar isso para o lixo, por favor.

Marcela não responde, apenas faz cara de quem não gostou da resposta e volta a assistir o filme. Gustavo sai da casa e vai até onde os moradores colocam seus lixos que serão levados pelos militares até algum laboratório de combustível, ou até um lixão.

Chegando lá, ele coloca a caixa junto com os outros lixos.

– Evandro, Evandro. – ele suspira pensando alto – Imagino que você tenha feito com boa intenção, mas isso não é um bom presente.

– Ah não? E o que seria um bom presente? – Gustavo se assusta com a voz vinda de trás dele e se vira rapidamente.

– Evandro? – pergunta Gustavo, olhando para aquela feição familiar, porém com algo bem diferente do que se recorda – O que aconteceu com você?

Os olhos de Evandro estão vidrados, com veias aparentemente estouradas, seus músculos estão claramente tensos e um de seus antebraços está mutilado.

– Não interessa. – responde secamente – Não vim pra isso. Quero lhe fazer um convite.

– E qual seria?

– Construirei uma Necropoli e quero que você me ajude. – responde Evandro.

– Venha morar conosco. – convida Gustavo.

Evandro ri.

– Não. É um outro tipo de Necropoli que quero construir. – por algum motivo Gustavo fica preocupado, mas espera para escutar se o policial tem algo a mais para dizer – Nela, não haverá humanos e nem immortuos.

– Como? – Gustavo fica confuso.

– Irei atrás de alguns antigos colegas e te treinaremos. Quando você estiver pronto, será como eu. – responde Evandro.

– Como você? – pergunta o mecânico – E o que é ser como você?

– É ser o início de uma real transformação nesse mundo morto.

Gustavo o encara nos olhos. Ele nem imagina o que o policial está planejando, mas, até um certo ponto, confia nele. Quem sabe essa seja uma boa notícia para ajudar Marcela a acabar com suas preocupações e eles ficarem numa boa.

Entretanto, esse pensamento soa estranho, tendo em vista que quem está planejando algo é um homem que de “numa boa” não tem nada.

– Certo. Aceito te ajudar, mas a Marcela vai junto. – responde Gustavo um pouco vacilante.

– Como quiser. – da de ombros Evandro – Arrumem suas coisas. Partiremos amanhã.

Evandro vai embora assim que termina de falar. Gustavo fica olhando para o lixo por algum tempo, refletindo se sua resposta foi realmente a melhor escolha. Ele lembra de Carla e o que Evandro tentou fazer com ela para ajudá-la a sobreviver.

Gustavo volta para casa, com um caroço incomodo em seu estômago.

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Fome de Sentido

Observando a cidadela de sobreviventes humanos no vale abaixo, Ahmed se recorda de quando “morreu” há aproximadamente cinqüenta anos atrás, por causa de uma pneumonia, no período do jejum no mês do Ramadan.

Ele foi um grande fiel do Islam por muito tempo, mas depois de sua “morte”, tudo mudou. Em seu coração, há ainda uma grande convicção de que foi graças às suas práticas espirituais que ele conseguiu passar pela transformação sem se tornar uma besta, como a maioria daqueles que povoaram o mundo recentemente, mas isso não o impediu de tornar-se um monstro.

Por experiência, ele sabe qual é a dificuldade de manter a sanidade durante o processo de “morte” e “ressurreição”, e também nos anos após. O corpo se enfraquece, a visão torna-se turva, a boca e as mucosas secam, para depois o corpo esfriar, o pulmão não mais se movimentar – dando uma sensação de afogamento –, o coração parar e a visão escurecer, criando um vasto terreno para alucinações. Ahmed teve uma visão do inferno durante seu falecimento, viu pessoas se devorando, sentiu na pele o desejo de devorar enquanto uma dor lacerante lhe dava a impressão de que estava sendo empalado e mutilado, porém sem perder a consciência em momento algum.

Ahmed observou tudo aquilo com grande esforço e orou para Alá pedindo misericórdia, pois após quarenta anos de servitude, não entendia o porquê estava sendo empurrado para o inferno. Seu corpo tencionava-se cada vez mais, ele sentia o estômago se revirando, espasmos que geraram estranhamento, já que seu corpo estava morto. Ele tentou respirar algumas vezes, por mero e forte hábito. Sua mente quase enlouqueceu de angústia quando percebia que não conseguia, que o esforço hercúleo não trazia benefício algum.

Ele se levantou com seu corpo já lavado quando seu irmão o estava enrolando com a primeira mortalha. Ahmed viu o terror no rosto de seu familiar, mas não sentiu nenhuma compaixão ou piedade. Sentia sim uma grande dor e vontade de tomar sua vida. Sentia que aquilo que lhe faltava, seu irmão possuía.

Seu irmão tentou fugir, mas a potência do corpo de Ahmed era maior por causa das tensões. Em uma explosão muscular, ele correu até seu irmão, o agarrou pelos ombros e o puxou, derrubando-o no chão.

Depois disso, houve apenas sangue e gritos, principalmente depois que seus outros familiares chegaram. Ahmed não os atacou, sabia que a probabilidade de ser “morto” era grande, então fugiu. Depois desse ocorrido ele foi “viver” na cidade de Lahore, no Paquistão, com sua grande população de islâmicos, entretanto não conseguiria sobreviver muito tempo se não agisse com cautela.

E assim o fez.

Por vinte anos conseguiu agir em Lahore sem chamar muita atenção. Assassinatos brutais deixaram a população temerosa, mas ele sabia como agir de forma que parecessem assassinatos religiosos, semelhantes aos dos antigos seguidores de Hassan. Suas vítimas sempre eram pessoas corruptas da comunidade islâmica ou raros infiéis: hindus, budistas, siques, e assim por diante. Porém, em um dado momento, uma de suas caçadas falhou. Ele chegou a morder sua vítima, mas essa conseguiu fugir e morrer horas depois, quando já havia espalhado boatos sobre a presença de ghul na cidade.

Foi graças a esse ocorrido que Ahmed percebeu que não precisava comer sua vítima até que ele morresse. Ele sentiu a vida dela aplacar seu sofrimento aos poucos, tendo seu efeito máximo quando ela faleceu. Entretanto esse fato também teve outros resultados.

Por máximo que a mente moderna negasse a existência de seres folclóricos ou mitológicos, a comunidade religiosa não o fez. Iniciou-se então uma caçada de alguns fanáticos à tal criatura. As autoridades legais não ficaram atrás, porém eles não caçavam um ghul, mas deixaram de temer que os assassinatos fossem obra de alguma seita xiita e passaram a acreditar que eram atos feitos por um pequeno grupo de assassinos sem fundamento islâmico, pois canibalismo não é bem visto pelo seguidores do Corão. Dessa forma ele preferiu partir para uma cidade menor, Okara, mas dessa vez, por medo de ser descoberto, se limitou por anos a alimentar-se de animais e de andarilhos.

Foram anos tortuosos que em alguns momentos fizeram com que Ahmed tentasse voltar à prática de sua religião, porém, depois da transformação, foi inviável manter suas crenças e práticas religiosas, sua atual natureza é incompatível com a fé, ou pelo menos, é para ele.

Ahmed passou pelo menos mais cinco anos em Okara, depois disso ano após ano peregrinou de uma cidade a outra, sem saber o que fazer de sua existência, além de lutar contra o constante sofrimento que sentia, se esforçando ao máximo para se manter são. A existência tediosa e sem sentido, o tornava, cada vez mais, um assassino cruel e calculista.

Matar, era a única coisa que o saciava. Que aplacava seu sofrimento. Ou, pelo menos, era essa a única percepção que ele conseguia ter de sua situação.

Foi há alguns meses atrás que o mundo se transformou no grande inferno que ele imaginou que um dia habitaria pela eternidade. Em pouco tempo, seres iguais a ele surgiam em todo o planeta, porém, poucos conseguiam sobreviver à transformação sem seqüelas mentais; e ele, cada vez mais, sentia o peso de seu ódio e de seu sofrimento em sua mente.

Com essa mudança, Ahmed desceu para a Índia, preferiu mudar de território, imaginando que isso, de alguma forma, traria respostas ou novas maneiras de lidar com sua condição. Lá ele entendeu como seus semelhantes menos capacitados podiam ser liderados por ele, e ficou surpreso com a empatia que voltou a sentir, porém, dessa vez, era em relação aos outros ghuls.

Esse retorno a um pequeno vislumbre de “sentimento humano”, lhe fez dar um novo sentido para sua “vida”. Assim, ele criou um exército de desmortos, que tinham como objetivo, extinguir quaisquer riscos as suas existências.

Ahmed retoma sua atenção à cidadela, repassando mentalmente o planejamento da invasão, para que eles tenham maiores chances de dizimarem aquelas ameaças. Ele urra fazendo com que seus soldados desmortos partam em direção ao inimigo. Cada tipo de urro fazendo-os agir de modos diferentes, conseguindo assim guiá-los estrategicamente na empreitada.

O velho morto-vivo sorri, percebendo que aquela sensação de poder e importância lhe dá mais um sentido para sustentar sua sanidade. Mas seu sorriso não dura muito. Um outro urro faz com que seu exército inteiro pare e retorne a posição inicial.

Mesmo estupefato, Ahmed tenta enviar novas ordens, mas isso demonstra-se inútil.

– Que diabos está acontecendo? – pragueja o paquistanês em urdu.

– O que você quer com isso? – uma voz áspera, na mesma língua, vindo de sua retaguarda, o faz ter sensações que ele acreditou que não serem mais possíveis. Um arrepio sobe sua espinha e um grande incômodo aflige seu coração.

Ele olha para trás e vê uma figura esquálida, alta, em estado de putrefação avançado.

– Quais seus objetivo com essa empreitada? – a criatura pergunta novamente em urdu.

– Quem é você? – Ahmed desvia da pergunta de seu interlocutor com outra questão.

– Qual dos meus nomes você quer saber? – responde a criatura, esboçando algo próximo a um sorriso.

– O seu verdadeiro nome. – responde incisivamente o paquistanês.

A criatura ri, fazendo-o sentir raiva, mas por alguma razão que Ahmed ainda não consegue explicar, ele não sente vontade de ferir seus semelhantes. A raiva apenas aumenta sua aflição e a vontade de tomar a vida de alguém; a única coisa que realmente alivia o sofrimento.

– Por que ri? – indigna-se Ahmed.

– Porque você é um tolo! Uma criança sem discernimento! – responde rispidamente a criatura – De que adianta ter mantido sua sanidade até agora, se você pensa como um animal?

O ódio começa a borbulhar em Ahmed. A dor e a angústia aumentam. Sua mente entra em uma violenta correnteza de sensações, imagens e pensamentos, que o torturam. Ahmed sente que está prestes a perder completamente seu autocontrole.

– AARRRGHHH! EU PRECISO DE VIDA! – grita o morto-vivo desesperado.

– Todos precisamos. Nós, eles, e qualquer outro ser. – retruca a criatura encarando Ahmed com seus olhos aparentemente cegos, esbranquiçados, mas que dão a impressão de olharem nas profundezas do espírito do ex-islâmico. – Você consegue perceber a fragilidade daquilo que você se esforça para manter?

As palavras da criatura o atingem como um soco. Ahmed percebe o quão delicado é esse “controle” que ele luta tanto para manter, ao mesmo tempo em que uma súbita compreensão o toma de imediato.

– Até quando lutar contra um inimigo externo lhe trás essa sensação de objetivo que te ajuda a manter sua sanidade? – pergunta a criatura.

– Até que não haja mais com quem lutar. – responde Ahmed, compreendendo o que a criatura quer lhe dizer. – Mas depois eu não sei como será. Terei novamente que lutar sozinho contra mim mesmo.

– VOCÊ É UM TOLO! – grita a criatura, surpreendendo o paquistanês. – Lutar contra você mesmo? Há duas mentes ai dentro?

Ahmed sente-se pressionado e não perde muito tempo refletindo:

– Uma boa e uma má. – responde imediatamente.

– Ignóbil! – a criatura atinge-lhe um soco que o faz cair ao chão por causa do impacto. Ele nunca havia sentido um golpe tão forte, mas o que mais lhe surpreende, é que ele não entende como a criatura é capaz de ferir um igual. É um impulso instintivo deles, não se digladiarem. – Terei que te destruir, pelo jeito. Você é estúpido demais para ser um dos que mantém suas capacidades mentais quase intactas. Você, com o poder que tem, irá trazer apenas mais sofrimento para todos nós, e para eles. – A criatura aponta com a cabaça a cidadela que Ahmed pretendia atacar.

– Mas… mas como? – pergunta o morto-vivo extremamente confuso. – Como você será capaz de me destruir?

A criatura ri novamente.

– Qual a diferença entre te destruir e matar qualquer ser vivo? – a criatura o encara – Mas por certo, você me pergunta isso, apenas para saber como adquirir mais poder e dar um sentido ainda mais estúpido para você tentar manter sua medíocre inteligência.

Ahmed sente uma grande vergonha se misturando com seu ódio.

– Não, eu…

– Cale a boca! – a criatura o interrompe – Não tente se enganar, criança. Você acredita ser eterno. Que eternamente terá que “lutar contra você mesmo”, nesse estado de esquizofrenia no qual você viveu até hoje. – um sorriso se esboça novamente em sua boca – Nós não somos eternos, o tempo nos degenera e o sofrimento torna-se cada vez mais insuportável. Fingir que isso não acontece de nada adianta e tampouco se agarrar a esses sentidos vãos que colocamos em nossas vidas, irão nos livrar de nossa angústia.

Em sua mente, Ahmed inicia uma discussão, tentando manter aquele sentido de “vida” que o fez se sentir mais forte nesses últimos tempos, que a cada palavra de seu interlocutor, desmorona e se transforma em pó.

– O que devo fazer, então? – pergunta Ahmed quase em desespero.

– Não sou seu pai, tampouco seu Deus. – responde a criatura – Tem apenas uma coisa que posso afirmar que você NÃO deve fazer: destruir essa cidadela.

– Mas por que não? – pergunta o desmorto.

– Simplesmente, porque eles são os únicos vivos dessa região. Nós apenas encontraremos outros em uma semana de viagem. – a criatura responde e vira-se para partir.

– É só para isso? Você vem até mim, faz tudo que fez, só para manter sua fonte de subsistência? – pergunta Ahmed indignado.

Ele escuta uma risada novamente.

– Nós precisamos de vida, fiel. – o óbvio da resposta deixa Ahmed ainda mais frustrado – Você quer tomar a vida de cadáveres? Por que não toma sua própria vida?

Ahmed nada responde, estupefato.

– Esses ghul, nossos semelhantes, só estão mortos, porque se deixaram prender completamente pela repetição do sofrimento comum a nós. O que te faz acreditar que tudo isso que você faz consigo mesmo, não te prende ainda mais ao seu sofrimento?

Uma forte angústia toma conta de Ahmed.

– Quem é você? – pergunta o paquistanês, em desespero – Me ajude.

– Meu primeiro nome foi Ravana, mas isso não tem importância e de nada o ajudará. Encare essa impotência e angústia que você está sentindo. Só assim você a compreenderá. Se não fizer isso, sua “sanidade” não durará nem mais uma década.

Ahmed curva-se em respeito.

– Agora deixe essas pessoas em paz.

Ravana caminha, sem mais olhar para trás, deixando Ahmed sem outra alternativa, a não ser encarar seu sofrimento, sentindo sua fome devorá-lo e o desejo de matar aumentar. Ele olha para a cidadela e a dúvida o divide ao meio.

Infecta

A dor é lacerante. Segurando seu antebraço esquerdo mutilado com a mordida do insanus immortuos, o agente Paiva tenta pensar em uma solução para seu novo problema – enquanto foge de vários immortuos que o persegue – antes que a necrose tome todo seu braço e antes que as bactérias o matem.

Em sua mochila ele carrega a cabeça do debile immortuos que ele estava caçando. Um presente a um amigo, que ele não entregará se não fizer algo, e rápido. Correndo por um matagal, Paiva se recorda da perseguição que ele e o grupo de Paulo sofreram, e também recorda da morte de Carla, “a mulher do mecânico”.

Sem pensar duas vezes, Paiva vai na direção de um mercado que vê a quase cem metros de onde se encontra. Suas balas acabaram, tudo que tem agora é um pedaço de ferro que conseguiu no caminho e sua faca, algo não muito eficiente contra algumas dezenas de insanus immortuos.

Chegando no mercado, ele procura uma forma de subir ao telhado e, por sorte, encontra uma escada de marinheiro. Paiva sobe rapidamente – o mais veloz que esse tipo de escada permite – enquanto escuta alguma das criaturas tentando subir a escada também.

Ao chegar no telhado, Paiva sorri por seu plano estar dando certo, enquanto aguarda a criatura. Ele sabe que sua situação atual se difere em muito daquela na qual estava há meia hora atrás, quando sua presa tentou encurralá-lo dentro da residência e ele demonstrou não ser apenas mais uma vítima.

No momento em que o debile immortuos retirou sua tropa para que Paiva saísse da casa e visse o seu poder, o policial entendeu que a criatura não o deixaria ser morto por seus subordinados. Aquilo era um desafio entre titãs, e todos aqueles lacaios, nada mais eram do que meros artifícios de seu adversário para cansá-lo.

Paiva subiu ao telhado e observou sua situação. Após uma rápida análise, ele traçou o seu plano e subiu no ponto mais alto da casa, sua caixa d’agua, para ter uma visão completa do terreno e determinar de onde vinham as ordens.  Ao avaliar a provável direção, ele correu pelos telhados saltando de um para outro, alternando casas de forma a criar obstáculos para seus algozes; observando as criaturas persegui-lo com dificuldade pelas partes baixas.

Ao chegar no último telhado, no fim do quarteirão, Paiva pulou da casa e correu para a rua. Porém, sua atitude contrariou até mesmo seu bom senso. Ao invés de fugir de seus perseguidores, foi de encontro a eles. Derrubou pelo menos sete com tiros certeiros na cabeça, mas isso não foi o suficiente, os insanus immortuos se aproximaram e tentaram agarrá-lo, entretanto, ele foi muito bem treinado para enfrentar tais criaturas. Sacando sua faca com a outra mão, ele conseguiu derrubar mais três de seus inimigos, dois com tiro e um com uma facada precisa no centro da cabeça.

Após o corpo do terceiro cair estatelado ao chão, Paiva foi agarrado e tentando se desvencilhar, acabou sendo mordido no antebraço ao contrapô-lo à mordida que visava seu ombro, próximo ao pescoço. Mesmo pensando já estar morto, ele continuou lutando, e acabou sendo salvo pelo urro de seu real adversário.

Por causa da ordem do debile immortuos, o insanus o soltou e, enquanto todos se afastavam, ele fez um torniquete em seu antebraço com um pedaço de sua camisa. Após isso, agachou-se e pegou sua faca que ainda estava cravada no immortuos inanimado no chão, com sua mão tremendo devido a dor que sentia.

– Voooccê… seeeerrráa… grande…. aaajuuudaaa… nóos… – disse o debile immortuos aparecendo na entrada do grande corredor que se abriu.

Paiva ignorou. Como se nada estivesse ocorrendo, ele pegou de seu coldre mais um pente de sua pistola e se preparou.

– Ajuda? – perguntou Evandro respondendo ao seu adversário, que se aproximava cautelosamente – Mmm. Me mostre que você é digno de minha ajuda.

O debile entendeu o desafio e começou a se aproximar mais rápido. Paiva guardou sua faca e atirou em um dos joelhos do immortuos, que caiu no chão por inércia.

– É só isso que você tem a oferecer? – provocou o agente, percebendo o ódio da criatura aumentar.

Para sua surpresa, o debile também sacou uma arma e disparou, mas para sua sorte, o immortuos não parecia ter tanto treino quanto ele.

Paiva saltou rolando no chão e começou a correr em direção do final do corredor, por onde tinha vindo. Antes de passar os últimos immortuos que formavam o paredão, ele virou-se e atirou em seu adversário.

Como calculado corretamente, a criatura estava se preparando para soltar um de seus urros, que provavelmente ordenaria a seus subordinados para que o parassem. Seu tiro atingiu exatamente na garganta do débile, destruindo-a sem decapitá-lo, emudecendo-o.

Sem comemorar o ocorrido, o agente atingiu quatro dos immortuos que estavam em seu caminho e correu. O debile immortuos, não mais conseguindo dar outra ordem para seus lacaios e sabendo que não poderia contar com eles até o efeito da ordem passar, começou a caminhar mancando rapidamente atrás de Paiva. Seu ódio era imenso, o que obscureceu sua paciência.

Paiva esperou seu perseguidor, escondido atrás de um muro de uma casa aberta. Aguardou-o com toda cautela de um atirador de elite. A criatura surgiu bufando, como se tivesse perdido sua pequena capacidade mental.

Sentindo o cheiro do agente, ele olhou em direção do muro onde Paiva se encontrava, mas antes de conseguir vê-lo, um tiro estourou parte de sua cabeça, derrubando-o.

O policial, com sua faca, arrancou a cabeça de seu adversário – o que não foi tão difícil graças ao estrago que seu tiro havia feito – e a guardou, começando a correr logo em seguida. Ele sabia que os outros immortuos começariam a perseguí-lo a qualquer momento, o que não foi diferente.

Ele escuta os urros no estacionamento do mercado, enquanto espera a cabeça do insanus immortuos que está subindo a escada aparecer. Ele prepara o ferro e assim que a criatura aparece, crava-lhe sua “arma” na cabeça dele.

Paiva sente a dor no antebraço novamente quase lhe tirar a consciência. Ele retira a faca de seu coldre e corta um pedaço da bochecha do immortuos que está dependurado na entrada da escada.

Ele sabe o que fazer, mesmo não tendo certeza de que irá funcionar. “Se existem os sapiens immortuos, porque não seria possível existir infectas que conseguem manter sua mente intacta?”, se pergunta o Agente Paiva, se convencendo para fazer aquilo que deve fazer, “Além do mais, se eu não fizer isso, serei um deles logo logo”.

Sem mais argumentar, ele morde o pedaço de carniça crua e engole com grande esforço, vomitando em seguida. Ele se ajoelha e continua vomitando mais e mais, até seus vômitos serem apenas sangue.

Exausto, ele cai no chão e sente a tensão em seus músculos. A transformação é extremamente dolorida. Ele sente como se seus músculos e pele estivessem rasgando, e um grande calor começa a queimá-lo por dentro. Uma grande quantidade de adrenalina atinge seu cérebro e seus sentidos ficam extremamente excitados. Quando Paiva abre os olhos, vendo o mundo em matizes de vermelho, ele percebe que sua mente mudou profundamente.

Olhando para do telhado para os immortuos na vastidão do estacionamento, Paiva sorri. Ele quer mais, e sabe como conseguir.

Predadores

Ao se imaginar novamente em um grupo de sobreviventes, agente Paiva – mais conhecido como Evandro – sente que fez a coisa certa ao deixá-los. Ele achou que poderia ajudá-los, mas seus métodos eram distantes demais da realidade emocional daquelas pessoas.

Para sobreviver em um mundo como o atual, com poucos seres vivos e milhares de immortuos, as pessoas devem ser mais pragmáticas e objetivas se realmente não quiserem ser devoradas. Naquele grupo, ele via isso em um ou dois companheiros, mas infelizmente era a extrema minoria, principalmente depois que uma delas, Lúcia, havia morrido. O mundo está cada vez mais perigoso, e apenas aqueles capazes de encarar essa periculosidade de frente é que realmente sobreviverão.

Com o número de immortuos imensamente maior, a periculosidade aumentou não apenas por questões numéricas, mas também pela presença de um número maior de debile immortuos e, quem sabe, sapiens immortuos. Esses seres são sagazes, inteligentes, capazes de emboscar um ser humano como um gato faria com um rato, ou qualquer uma dessas metáforas; o que foi feito uma vez com Paiva e seu grupo, porém o jogo mudou, o policial, nessa nova situação, não é um rato, dessa vez ele é um cão de caça.

Esse foi o outro motivo que o fez se afastar do grupo: ele precisava caçar aquele que organizou a emboscada que quase os dizimou. Infelizmente, não importa o que fizesse, Carla não voltaria à vida. Evandro – agente Paiva –, se lamenta realmente pela morte da “mulher do mecânico”, pois imaginava o quanto àquela perda deve ter derrubado a única pessoa com quem ele teve algum real contato social nos seus trinta anos de profissão; dez de treinamento, vinte de caçada.

Além disso, ele havia falhado em sua missão auto-imposta de proteger o “mecânico e sua família”, aqueles que o aproximavam de sua humanidade. Porém, agora ele sabia: ele não é humano, não importa o quanto ele se esforce para se sentir assim.

Não foi tão difícil de encontrar os rastros de sua presa o que o trouxe até a esquina onde se encontra. Agente Paiva voltou ao local onde ocorreu a emboscada e observou bem o terreno. “Se você liderou seu bando nessa região, deve ter sido de algum ponto estratégico. Mas qual?”, era o que o policial pensava enquanto observava aquele local cheio de mato, com condomínios de escritórios ao longe.

Ao ver uma torre de caixa d’água em um dos condomínios, as esperanças de Paiva reascenderam e foi lá que ele buscou vestígios do debile immortuos, líder daquele bando. Foi lá que sua caçada realmente começou.

Olhando por detrás do muro da casa de esquina, o policial vê quatro insanus immortuos esparsos em estado avançado de decomposição caminhando lentamente sem rumo. Seu orgulho lhe faz pensar que seria fácil passar por eles, porém, seus anos de experiência lhe dizem que isso seria extremamente imprudente, afinal, sua presa está a espreita em algum lugar, o aguardando como se ela própria fosse o verdadeiro predador.

Paiva respira fundo, deixando o ar sair lentamente de seu pulmão, observando como está a situação ambiente. Ao respirar ele percebe o quão rançoso está o ar, com o cheiro de podridão quase o intoxicando. Ele sente o vento leve tocar sua pele e se dirigir ao sentido oposto ao que os immortuos se encontram, o que o contenta por confirmar aquilo que suspeitava: sendo espantoso o faro das criaturas, eles já o teriam sentido se o vento não estivesse ao seu favor. Seu único desejo é que não haja mais nenhum outro immortuos a pelo menos cem metros em sua retaguarda.

Percebendo que passar por aquela rua não é uma das melhores opções, Paiva, sem guardar seu revolver com silenciador, retorna duas casas e pula o muro, optando por fazer seu caminho por dentro.

Sem muita dificuldade ele abre a porta. Ela estava trancada, mas a fechadura era simples, nada que o policial nunca tivesse aberto antes. Ele caminha dentro da casa, buscando algum mantimento que não esteja estragado, pois sabe que não terá muitas outras oportunidades. No armário da cozinha ele encontra algumas bolachas com a data de vencimento para daqui dois meses, pega-as e as coloca em sua pequena mochila.

A casa está silenciosa, mas isso não quer dizer muita coisa quando se está caçando um debile immortuos – como é o seu caso – ou um sapien immortuos. Sentindo um pequeno incomodo, o policial opta por vasculhar a casa, ao menos para ver se sua presa passou por lá.

A porta do corredor está aberta e, ao entrar, ele se depara com sangue seco espalhado por todas as direções, além de pedaços de carne em putrefação, centenas de moscas e larvas. Aquilo lhe causa um certo enjôo pelo cheiro forte – algo que é difícil de se acostumar – e um estranhamento por todo esse sinal de luta, mas nenhum sinal de arrombamento nas portas de entrada da casa, entretanto, nada disso o impede de continuar em direção aos quartos.

Seus instintos de predador estão excitados. Algumas poucas vezes Paiva se confundiu entre sua natureza predatória e sua natureza sobrevivente, o que acabou lhe colocando em enrascadas. Porém, para ele, não é isso que está ocorrendo dessa vez, depois que entrou naquela casa, ele soube que há algo lá que vai lhe ajudar em sua caçada.

Ele entra em um dos três quartos da casa. O fedor está mais forte e ele se prepara para qualquer possível perigo. As venezianas estão fechadas, o que impede a entrada da luz do sol pela janela, mesmo assim é possível ver que a cama está ocupada por alguma “massa ondulante”. Ele clica no interruptor para ascender a luz, mas não tem energia, “Por que fiz isso?”, se pergunta já que a falta de energia não é uma novidade para ele. De sua mochila ele saca uma pequena lanterna e varre o local com sua luz, iniciando pela cama – onde há dois corpos com a cabeça estourada cheios de vermes se movimentando – e seguindo por todo o quarto.

Não há nada ali. Ele desliga a lanterna e caminha para o outro quarto, não aquele que está mais próximo, mas para o do fim do corredor. A porta está trancada, o que ele estranha, mas não se intimida. Com presteza e cuidado ele a destranca, quase sem fazer nenhum barulho; entretanto, não é com a mesma “delicadeza” que ele a abre. Após virar a maçaneta, Paiva a empurra com o pé, apontando sua pistola para todos os cantos daquele quarto, procurando um possível habitante.

A janela do quarto está escancarada, o que o torna completamente iluminado, sem possibilidades das sombras esconderem alguma surpresa. Não encontrando ninguém aparente, com cautela, Paiva se agacha para ver embaixo da cama, mas não encontra nada. Depois revista os armários e, novamente, nada. Ele se aproxima da janela gradeada, para ver se há alguém no quintal, mas não vê sequer um movimento.

Pensando que talvez aquela sua intuição investigativa, na verdade tenha sido um mero incomodo por sua situação, Paiva se afasta ainda olhando para o quintal e vê algo que o chama a atenção: um pingo de sangue fresco na beirada da janela.

Ele se aproxima para se certificar e sente a adrenalina aumentar quando uma mão desmorta toca a grade ao mesmo tempo que um berro monstruoso sai da garganta de seu dono. Por reflexo Paiva aponta sua arma para a testa da criatura e puxa o gatilho. Contudo, quando aquele cai, outros mais aparecem. “Merda! É uma armadilha!”, pragueja o policial correndo para a fora do cômodo.

Mais urros daquelas criaturas ecoa pela casa, Paiva chega até a entrada do corredor e se depara com vários já dentro da residência. Com três tiros ele derruba dois insanus immortuos e fecha a porta, correndo de volta para o quarto, enquanto escuta a madeira espatifando no chão.

Ele fecha a porta do quarto onde encontrou a gota de sangue e vê uma aglomeração de seres decompostos na janela. Encostando-se na porta ele recarrega sua arma e pega um objeto oval em sua mochila. “Hora de te usar”, comenta mentalmente enquanto se afasta da porta e aponta para aquela direção. Com a boca Paiva segura o pino da granada e o retira, a segurando sem deixar a alavanca cair.

Os insanus immortuos derrubam a porta, urrando insanamente, enquanto começam a cair pelos tiros de Paiva, que solta a alavanca da granada. Após o quinto tiro – e 3 segundos contados – ele arremessa a granada pelo espaço entre o batente da porta e a cabeça das criaturas, voltando a atirar logo em seguida. Antes da granada chegar ao nível das cabeças a explosão ocorre, elas são destroçadas pelos estilhaçoes e pedaços de cadáveres voam para dentro do quarto.

Sem perder tempo ele corre por cima do aglomerado de carne e já prepara sua segunda e última granada. Indo em direção a porta do corredor, ele vê mais um grupo de insanus immortuos o encarando. Um urro diferente interrompe todos os rosnados daqueles que o encaram na entrada do corredor, fazendo-os recuar. Mesmo desconfiando do que está acontecendo, Paiva caminha lentamente até a copa e depois para a cozinha: mais nenhum outro immortuos é encontrado.

Abrindo a porta dos fundos ele se espanta pela repentina ausência das criaturas, guarda a granada e corre até o muro, subindo nele. Agarra-se no telhado e o sobe, buscando ter um local estrategicamente melhor para lidar com a situação.

Olhando para todo seu entorno, Paiva percebe o jogo sádico no qual se encontra. Centenas de immortuos estão cercando a casa onde ele está. Ele sorri, reconhecendo o potencial de seu “inimigo”, e de algum lugar ele escuta uma risada sinistra e disforme.

“Finalmente um pouco de dificuldade”, comemora intimamente o policial com arrogância, trocando o pente de sua arma.

– Está na hora de definirmos melhor quem é o predador e quem é a presa. – desafia em voz alta o agente Paiva, escutando um berro que parece aceitar seu desafio.

Untoten

Há anos que Renner Sven estuda aquele judeu que morreu e “ressuscitou”, porém suas pesquisas foram infrutíferas para entender tal fenômeno. Nos campos de concentrações ocorreram pelo menos dez casos de judeus e ciganos que morreram e “ressuscitaram” com hábitos canibais; a maioria acabou sendo destruída, ou pelos guardas alemães ou pelos próprios companheiros, apenas dois foram aprisionados e levados para os laboratórios da Renânia e para o laboratório onde Renner trabalha, em Anschluss.

Esses casos ajudaram os cientistas nazistas a entenderem as informações passadas pelos italianos e japoneses, cada um de sua maneira, a respeito de mortos famintos que se levantam do túmulo. Aquelas criaturas só eram abatidas quando suas cabeças fossem destruídas.

A partir dos dois espécimes capturados nos campos de concentração e outros capturados nos campos de guerra na China e Polônia, os cientistas do Eixo puderam pesquisar aquele fenômeno estranhamente natural. Porém, muito pouco descobriram.

Mesmo assim, graças ao contato com tais criaturas, a criatividade mórbida de alguns cientistas borbulharam. Eles pensaram em várias possibilidades de utilização daquele tipo de criatura em batalha. Desde o desenvolvimento de algum “vírus” altamente contagioso para ser espalhado em alguma cidade, até a criação de algum pelotão formado por untoten treinados.

Foi com essas idéias que a equipe de Renner passou a trabalhar, porém, para o cientista, restou por obrigação estudar o fenômeno natural. Como ele e sua equipe dividem o mesmo recanto do laboratório, ele vê como os experimentos de seus colegas dão certos frutos, enquanto o seu não.

Renner acabou nutrindo uma grande inveja para com seus colegas; não que esses tenham conseguido resultados realmente satisfatórios, mas só o fato de terem conseguido criar um untoten, já o deixa irritado. De seu canto do laboratório, ele observa os cientistas quebrando a cabeça em como fazer com que seu espécime obtivesse reações agressivas e instintivas de “sobrevivência” como foram vistas naqueles transformados naturalmente. Mas não. O espécime possui retardos mentais e reflexivos, além de ser altamente “autista”.

Todos da equipe sabem que os untoten, podem ser a chave para o nazismo não ser derrotado. Desde que a URSS e os EUA entraram na guerra, o Eixo tem perdido territórios e, cada vez mais, a pessimista previsão da derrota torna-se mais próxima de se realizar. Este fato é o que faz as experiências com aquelas criaturas serem cada vez mais tratadas com grande intensidade em todos os laboratórios do Eixo que trabalham com o projeto.

Renner observa novamente seu espécime, já um pouco putrefato por causa da falta da alimentação de produtos vivos. Ele encara nos olhos sem brilho da criatura e depois olha seus dentes, sempre a mostra com rosnados e urros o acompanhando.

– Você deve sentir bastante dor, não é mesmo? – pergunta o cientista para seu “afilhado”, porém, a única resposta que ele obtém é um berro gutural e uma ameaça de mordida.

Um clique vem na mente de Renner que o faz rapidamente puxar as tiras de couro que estavam afrouxadas no pescoço da criatura, prendendo-a na cama e começando a erguer o encosto para deixá-la inclinada. Ele pega uma serra e abre a cabeça de sua cobaia deixando seu cérebro intacto a mostra; algo que ele sempre quis fazer, mas tinha medo de perder o espécime por causa de algum possível acidente, o que não o perturba mais dentro das novas condições.

Sabendo que a criatura não sente dor no corpo, o cientista sempre estranhou que eles tivessem aquelas reações aparentemente tão sofredoras. Colocando dois fios condutores no lóbulo pariental do cadáver, ele disparou descargas elétricas para ver a reação do espécime.

A criatura torna-se ainda mais feroz, chegando até mesmo a quebrar um de seus próprios braços ao tentar arrebentar a espessa correia de couro que o prendia. O cientista desliga a bateria e percebe que o espécime diminuí em sua fúria, mesmo continuando com a insanidade natural daqueles seres.

Ele vai até uma gaiola e pega um gato vivo. Ligando novamente a bateria, ele, com uma certa dificuldade, coloca o gato na boca no untoten, que o morde. No momento em que a mordida é dada, Renner retira o gato de perto e,  enquanto o animal ainda está vivo, a criatura se “acalma”, ignorando até mesmo o estímulo cerebral. Entretanto, isso dura pouco. Assim que o gato morre, a criatura volta para seu estado furioso.

– Hey, vocês! – o cientista chama a atenção de seus colegas sorrindo, sentindo-se bem novamente – Sei como tornar seu espécime agressivo como o meu.

Mesmo com o deboche de seus colegas ele não se intimida e caminha até o untoten criado no laboratório. Os outros cientistas tentam pará-lo, mas ele, com toda sua postura confiante e gesticulando para ninguém lhe tocar, chega até o espécime, pega uma serra e abre uma cavidade na cabeça do untoten.

De deboche e raiva, o olhar de seus colegas passam a demonstrar curiosidade. Pegando um fio condutor, Renner insere na cavidade e liga a bateria. De imediato o untoten torna-se insanamente furioso, atacando outro cientista e arrancando um pedaço de sua jugular antes que Renner desligue a bateria.

Ao desligar e puxar o fio, a criatura volta para seu estado semi-catatônico anterior. Os outros cientistas correm para ajudar a vítima caída. Renner, não está preocupado com ele, e sim se sente orgulhoso com sua vitória. Aquela descoberta é essencial para o nazismo como um todo.

Sentindo-se um herói de guerra, Renner pega um bloco de anotações para registrar suas descobertas, quando ouve um berro vindo de um de seus colegas; aquele que havia sido mordido estava agarrado e mordendo um deles. Renner levanta-se por reflexo, assustado, quando escuta um estrondo vindo de sua retaguarda. Logo ao se virar, sente sangue escorrendo em seu peito, a fraqueza tomando seu corpo e cai de joelhos.

Antes de perder a consciência, ele apenas consegue ver soldados entrando no laboratório, com a estrela comunista em seus capacetes, e lamenta a perda que a ciência teria com sua morte.

Situação Internacional

– Isso é inacreditável. – comenta amargamente a primeira oficial do secreto “Immortuos Project”, ex “Undead Project”, da área de investigação e combate ao terrorismo e crimes contra a segurança pública da Interpol ao seu superior, sem tirar os olhos da tela do computador, onde a imagem de uma ampliação do mapa europeu está a mostra. No mapa vários pontos vermelhos, que representam “focos da epidemia”, tomam quase toda a área.

– Concordo que seja impressionante a velocidade com que isso se espalhou em tão pouco tempo. Algo que aparentemente estava sob-controle. – responde o superintendente do projeto, fazendo-a olhar para ele.

A Interpol criou o “Undead Project”, em 1946, quando o quartel general da polícia internacional era em Paris, graças às notícias a respeito de experiências feitas pelo Eixo com cadáveres reanimados e uma possível arma biológica que faria cidades inteiras se extinguirem em uma onda de canibalismo intenso. Posteriormente, os resultados de alguns experimentos foram extraviados e caíram nas mãos dos EUA e URSS, que iniciaram seus próprios experimentos durante a Guerra Fria. Eles, tanto a Interpol, quanto o governo dos EUA e URSS, nunca souberam exatamente como o Eixo conseguiu desenvolver tais experimentos, mesmo que a maioria, por sorte, não tenha dado certo. Todas essas informações nunca chegaram ao grande público, porém, em 1963, durante a Conferencia Geral que ocorreu em Monrovia, Libéria, eles receberam “ilustres” visitantes que exigiram uma reunião privada com os membros da polícia internacional. Foi nessa reunião, que eles souberam que a situação era mais obscura do que poderiam imaginar.

Christine Swan discorda de seu superior com a cabeça.

– Nunca esteve sob-controle, senhor. – sua voz não esconde seu nervosismo e tristeza – Agora muito menos…

James Stevenson se mantém em silêncio. Ele realmente não sabia o que responder, sabia que, de certa forma, a oficial Swan estava certa, e prefere deixá-la desabafar.

– Há quanto tempo aquelas instituições sabem a respeito dos immortuos? Não é a um ou dois séculos, mas a mais de um milênio! – sua fala é alta, quase gritando, e lágrimas escorrem por seu rosto – Faz mais de um milênio que nós, seres humanos, sabemos da existência desses seres e não descobrimos NADA! Nada que nos fizesse ter real “controle” sobre a situação!

James desvia o olhar do rosto de sua subordinada e observa a grande tela do computador por de trás dela, refletindo sobre as perguntas que ouviu enquanto vê a tela com grandes áreas vemelhas.

– Oficial Swan, se acalme. – sua voz é suave – Tente entender que tudo isso não é tão simples assim. – Christine ameaça retrucar, mas a lembrança de com quem ela estava falando a fez se controlar – Por vários milênios o ser humano foi muito supersticioso, isso influenciou muito os resultados das pesquisas. Além disso, as questões políticas, disputas de poder, e todas essas coisas, atrapalharam qualquer ação conjunta que elas pudessem ter feito. Em todo o mundo várias instituições foram responsáveis por manter esses fatos e outros em segredo, além de proteger as pessoas, e elas em sua maioria eram religiosas. Sem nenhuma capacidade de fazer uma pesquisa científica correta até aproximadamente o começo do século XIX.

Christine inspira profundamente e se controla virando-se para olhar a tela, vendo os pontos vermelhos aumentarem no computador. Ela se levanta e vai pegar um copo para beber água.

– Entendo o que você quer dizer, mas e durante a Segunda Guerra, senhor? Ou durante a Guerra Fria?

James aperta um botão no teclado para diminuir o mapa e ver a situação mundial, o que torna a situação ainda mais desesperadora. Graças a informações das bases da Interpol localizadas em outros países, as marcações cobrem os continentes como se fossem núvens cobrindo o céu. Não há sequer um país que não esteja tingido de vermelho.

– Os casos sempre foram raríssimos. Nessas épocas, nossos cientistas ainda viam os “boatos” a respeito de “motos-vivos” como lendas. – James da uma pausa para refletir – Lembre-se que fundamos o “Undead Project” apenas após o Eixo ser derrotado quando, ao invadirmos laboratórios deles na Renânia, Boemia, Áustria e Japão, descobrimos seus experimentos. O que me impressiona, na verdade, é que nenhum governo tinha informações sobre esses seres, ou pelo menos, nenhum expôs tal conhecimento.

– Mas o Eixo sabia da existência desses seres. – retrucou a oficial Swan recebendo um severo olhar de advertência – Desculpe, senhor.

– Prosseguindo. A policia internacional ainda desconhecia a existência daqueles desmortos que surgem a milênios entre os vivos. Compreenda que tanto durante a Segunda Grande Guerra quanto durante a Guerra Fria, os governos estavam preocupados com os experimentos feitos pelo Eixo, EUA e URSS. Nunca tivemos prova de que esses experimentos deram origem a alguma “doença”… – nesse ponto houve um fraquejo na voz do superintendente que não passou despercebido pela primeira oficial – As pesquisas que encontramos, foram fracassadas em criar uma arma biológica tão terrível, porém, sabemos que os Nazistas destruíram algumas pesquisas desse projeto, antes de colocarmos as mãos nelas. Além disso, tanto os EUA quanto a URSS mantiveram suas pesquisas extremamente bem escondidas.

Um silêncio mórbido tomou conta da sala por um tempo.

– Você acha que o problema que estamos enfrentando no mundo seja resultado de alguma falha desses experimentos, senhor? – a oficial quebra o silêncio com a mesma pergunta que James se fazia mentalmente.

Ele reflete por algum tempo e responde afirmativamente com um balanço de cabeça e um olhar triste.

– As informações que as “instituições” nos trouxeram na Conferência Geral de 1963, nos falavam da existência de seres que “espontaneamente” tornavam-se “immortuos” após a morte. Porém, eles não mencionavam nada a respeito de que aquilo era uma doença contagiosa. Isso aparecia apenas nos relatos folclóricos e lendários, mas nada além disso.

A desesperança torna-se ainda mais presente nos olhos de Christine.

– O que faremos agora, senhor? – pergunta com um profundo desânimo na voz.

– Vamos nos preparar para o que está ocorrendo. Dê as ordens para a abertura do terceiro abrigo. Reúna um contingente e leve o máximo de civis possíveis para lá. Eu contatarei o exército para saber como estão indo as operações de sobrevivência.

– Sim, senhor! – responde a oficial Swan passando uma toalha em seu rosto e parte. Mais uma vez James releva a falta de trato da oficial e se aproxima do computador.

Vendo o mapa mundi ele se espanta mais uma vez com a quantidade e velocidade de “contágio”, e mais uma vez acredita em sua teoria de que algo deu errado com algum experimento. Até a última semana a proporção de immortuos eram de um para um milhão de mortos, logo no começo dessa semana essa proporção caiu para um pra cada quinhentos mil mortos, e hoje a proporção está estabelecida de um pra um.

Ao fim de sua reflexão, uma forte melancolia toma conta. Nunca sua arma esteve tão pesada em seu coldre.

Ossos do Ofício

Não era fácil se tornar um agente do “Project Immortuos”, pois devia-se não só treinar o corpo e as capacidades de investigação, como durante os dez anos de treinamento passava-se também estudando medicina tradicional chinesa, tibetana, indiana e ocidental. Só após os testes de conhecimento a respeito de sintomatologia baseadas nesses estudos é que o policial tornava-se um agente e começava a “caçar”.

No Brasil, isso não é diferente. Leandro Paiva, que recebeu a intimação para participar do “Projeto Immortuos” assim que ingressou nas forças armadas brasileiras e se destacou pelo seu preparo físico, foi dado como morto para a sociedade, recebeu o nome de Evandro Alberto de Oliveira e iniciou seu intenso treinamento diário, no qual acordava às quatro da manhã e dormia à meia-noite. Um agente em treinamento não tinha fim de semana ou feriado, os dez anos eram intensos e reveladores, além de o tornar um predador quase perfeito.

Mesmo isolado e sentindo-se uma criatura a par da humanidade, é graças a esse treino que Evandro sobrevive atualmente.

Ele escuta o som de um carro na frente de sua casa e pragueja pela ignorância do motorista; provavelmente ele está chamando a atenção de vários immortuos na região. O veículo parece parar e ele escuta a campainha tocar.

Com todo seu conhecimento, Evandro sabe o quanto deve-se ter cautela na “nova situação mundial”. Com certeza devem haver centenas de debile e sapiens immortuos espalhados por ai. Seria tolice dele atender a campainha.

O carro logo desliga e Evandro sorri, caminhando até a porta, de onde escuta barulhos de pancadas e estalos na cerca elétrica. Após escutar o segundo baque de alguém pulando o muro, ele a abre e vê um vulto pulando para dentro de sua residência. Sem pestanejar ele saca sua arma e derruba a “criatura” com um tiro no pescoço e outro na cabeça.

As outras duas “criaturas” pulam para trás de seu carro na garagem se escondendo de sua vista e gritando algo como: “Pare, por favor!”. “Se forem immortuos, são dos inteligentes”, constata Evandro resolvendo iniciar uma conversa:

– Quem são vocês?

– Somos vivos! Viemos buscar ajuda! – responde um deles com uma voz ansiosa.

Cautelosamente, Evandro prossegue:

– Vieram realmente buscar ajuda? Ou querem tomar minha casa? Ou, talvez, comer a minha carne?

Há um breve momento de silêncio, um possível sinal de surpresa por ele estar certo, ou espanto de alguns sobreviventes que achariam estranho alguém tentar conversar com os immortuos.

– Viemos pedir ajuda para Evandro Alberto de Oliveira! – responderam eles, surpreendendo o policial – Temos companheiros vivos do lado de fora da casa, entre eles o mecânico Gustavo que cuidava da blazer cinza dele!

“Gustavo?”, pensa o policial tentado a acabar com aquela conversa e ajudar o bom mecânico. O tal mecânico e sua família, mesmo não tendo uma relação real de amizade com ele, foram os únicos seres humanos com os quais Evandro se simpatizou após seu treinamento.

– Digam seus nomes. – ordena ele.

– O meu é Lúcia. – responde a mulher da dupla.

– Meu nome é Paulo Vieira Sales. – responde o homem logo em seguida.

– Venham até algum local que eu possa vê-los. – as duas pessoas caminham lentamente com as mãos na cabeça – Agora tirem as roupas.

Ambos se olham estupefatos, ouvindo o policial chamar suas atenções:

– Andem logo!

Afinal, não é porque eles sabem seu nome e o do mecânico que ele não se certificará dos sinais. Foi graças aos orientais que os agentes do “Project Immortuos” conheceram esses sinais, permitindo assim a identificação prévia de pessoas que tornariam-se immortuos após falecerem; porém, não era algo fácil de ser percebido. Evandro lembra de quando teve que matar um dos mecânicos que trabalhavam para Gustavo, ao perceber que tal funcionário possuía pelos menos três dos sinais da “doença”.

Atualmente, os sinais da “doença” são insignificantes, pois todo mundo os tem. Porém, os sinais daqueles que já se transformaram são outros, e são esses sinais que Evandro quer se certificar de que a dupla não possui.

– Virem-se, deixe-me ver se vocês não são como ‘eles’. – ordena Evandro para o casal pelado a sua frente.

– Só o fato de estarmos falando não seria prova suficiente de que não somos mortos vivos? – perguntou a mulher, que parecia ser mais corajosa, gerando um pequeno olhar de inveja por parte de seu parceiro. “Ele queria ter feito a pergunta”, comenta a si mesmo o policial, percebendo como aquele homem se sente incomodado pela figura de liderança que aquela mulher representa.

– Não. – sua resposta é seca, o que faz com que os dois o obedeçam sem mais questionamentos.

Ele observa com cuidado e vê alguns dos “sinais menores” mais óbvios que ele aprendeu na medicina oriental: peles um pouco ressecada, veias levemente atrofiadas, olhos com pouco brilho, baixa sudorese. Porém, nada dos sinais “maiores” que os caracterizariam como immortuos.

– Ótimo, seus amigos estão esperando na frente? – pergunta Evandro escutando o carro ligar novamente.

– Sim. Por favor, abra logo o portão, deve ter criaturas se aproximando. – responde Paulo.

Evandro pega o controle de seu bolso e abre o portão.

– Vistam-se. – diz ele para Paulo e Lúcia, enquanto vê o mecânico entrar com a fiorino.

O policial suspeita que a idéia de ter ido procurá-lo, tenha sido de Gustavo. Talvez, finalmente, ele tenha entendido o recado de sua “ameaça” e de que, na verdade, Evandro nunca representou perigo para ele e sua família.

Quando Evandro percebeu os “sinais menores” em Joel – um homem gordo, que se encharcava de suor em pouco tempo, mas estava seco após quatro horas de trabalho – sentiu um pequeno incomodo, pois saberia que aquilo colocaria seu “amigo” Gustavo em risco. Na mesma noite em que percebeu os tais “sinais”, Evandro começou a investigar Joel mais de perto, para certificar de que ele possuía os outros sinais: mucosas esbranquiçadas, diminuição do apetite, calcificação nas unhas, e assim por diante. Para isso, o policial, após analisar algumas fotos que tirou do tal Joel, optou por destruí-lo.

Ele foi até a casa de Joel e esperou dar 20:00hs, o horário que o mecânico deixava sua esposa e seus filhos em casa e ia tomar “uma dose”. Chegando na primeira esquina de sua rua, Joel foi interceptado por Evandro que o estrangulou, sem deixar brecha para perguntas como: “Por que?”, ou súplicas. Aquele homem não tinha culpa, era mais uma vítima do acaso genético ou seja lá o que for, Evandro não saberia o que lhe dizer e, portanto, preferia não conversar com sua presa.

Assim que Joel caiu desacordado, Evandro sacou sua pistola com silenciador e atirou na cabeça dele, no mesmo instante que esse abriu seus olhos famintos. Com um certo esforço, o policial levou o corpo de Joel para um terreno baldio próximo e lá esperou a pequena movimentação do bairro diminuir. Quando deu meia noite, foi que Evandro começou a mutilar o corpo para guardá-lo em sua caixa, sem sentir o mínimo de arrependimento, pois sabia que estava cumprindo seu dever.

Evandro passou aquela noite pensando como “contar” para Gustavo sem revelar exatamente o que ele fazia; ele não queria perder o contato com o mecânico. Foi assim que ele optou por não dar fim no corpo e levar seu carro para o mecânico logo de manhã.

Ao ver o mecânico estacionando o carro e o portão terminando de fechar sem nenhum immortuo adentrar, ele se aproxima para cumprimentá-lo. Ele é uma das poucas pessoas que o policial tem real consideração, e proteger a ele e sua família, trará alguma humanidade para sua vida novamente. “Com certeza trará”, conclui Evandro, sem refletir sobre como sua presença afetará a vida do “bom mecânico”.

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